8. ARTES E ESPETCULOS 1.5.13

1. TELEVISO  A DANA DAS CADEIRAS
2. LIVROS  500.000 J CURTIRAM
3. CULTURA  ESSE CARA J ENCHEU
4. CINEMA  BOBAGEM DA MELHOR QUALIDADE
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  ENTRE IDEIAS E ATOS

1. TELEVISO  A DANA DAS CADEIRAS
A escalao de elenco na Globo  uma novela  parte,  qual se tenta impor normas  mas muito ainda se resolve casualmente nos corredores da emissora.
BRUNO MEIER

     Assim que a sinopse de Amor  Vida  novela das 9 que estreia em 20 de maio  foi aprovada, o autor Walcyr Carrasco e o diretor Wolf Maya fizeram um pedido especial  direo da Rede Globo. Dois atores eram considerados indispensveis para o elenco. Antnio Fagundes , segundo Maya, "a cara da cidade" onde se ambienta a trama, So Paulo. E seu narigo batatudo era considerado perfeito para o biotipo do personagem, um patriarca de origem rabe (sim, a estereotipia  um elemento crucial para a escolha de atores em novelas). Pilar, sua mulher,  exagerada, acima do tom. Escolha bvia: Susana Vieira. H seis meses, os sessenta personagens de Amor  Vida comearam a ganhar corpo em duas salas da Globo. At que se chegasse ao time completo, porm, uma novela em paralelo aconteceu nos bastidores. Mudanas na idade dos personagens, por exemplo, foram feitas no meio do caminho (Carrasco tornou mais jovem uma milionria que sofre de cncer, para dar mais peso ao drama da doena: Vanessa Gicomo, de 30 anos, deu lugar a Marina Ruy Barbosa, de 17). O mexicano Gael Garcia Bernal era o cafajeste dos sonhos da direo do folhetim para viver um peruano que, no primeiro captulo, conhece a mocinha em Machu Picchu. Como Bernal no podia passar dez meses no Brasil, Juliano Cazarr, o Adauto de Avenida Brasil, entrou no lugar  sem sotaque castelhano: ser um brasileiro que visita o Peru. Valdirene, a tchutchuca que se tornar cantora gospel, foi escrita para uma comediante. Ingrid Guimares, a primeira opo, j estava em Sangue Bom, a nova trama das 7, e foi preciso submeter a ento apresentadora Tat Werneck, destaque da MTV Brasil em 2012, a uma bateria de testes at que ela ganhasse o papel. Flvio Stefanini ser um dono de bar. Quem poderia ser sua mulher? Trs nomes foram sondados. Vera Holtz j estava reservada pelo autor Ricardo Linhares para Saramandaia, no horrio das 11, e Eliane Giardini estava guardada para uma futura trama das 6. Cssia Kiss foi incumbida do trabalho, mas, h um ms, decidiu relaxar em um mosteiro; Eliane Giardini, afinal, assumiu o papel. 
     A escolha dos atores certos  tida como o alicerce para o xito de qualquer trabalho na TV, mas o crescimento na produo dramatrgica (so quatro novelas em cartaz, quatro em espera e seis sries) no vem sendo acompanhado pela oferta de nomes de ponta considerados aptos a segurar o ibope. "Precisamos de mais atores carismticos do que de excelentes atores. Faltam figuras como Julia Roberts e Brad Pitt na TV brasileira", argumenta Ricardo Linhares. A Globo conta hoje com mais de 400 atores contratados  grosso modo, metade no ar, metade na fila. "Produzimos mais hoje e percebemos que, se todo autor reservasse elenco com muita antecedncia, a coisa iria travar", diz Ary Nogueira, diretor da Central Globo de Desenvolvimento Artstico. Para disciplinar o processo, Nogueira e o diretor de entretenimento Manoel Martins limitaram a seis o nmero de atores que cada autor de novela pode reservar com antecedncia. Tinha autor que reservava um mundo de gente e no sabia o que fazer depois. Os prprios atores chiavam", diz Silvio de Abreu, que tentou garantir cinco nomes para Guerra dos Sexos: Tony Ramos, Irene Ravache, Mariana Ximenes, Reynaldo Gianecchini e Claudia Raia. S no levou a ltima, remanejada para Salve Jorge. 
     Lanado, em 1986, sempre sob a liderana de Ary Nogueira, senhor de fala mansa com quarenta anos de televiso, o Departamento de Recursos Artsticos apoia a criao de toda a dramaturgia e entretenimento da Rede Globo. Encampa desde a formao de novos profissionais at a anlise de projetos de novos programas  e tambm o recrutamento de atores. Mas os primeiros passos para uma escalao de elenco menos improvisada foram dados em 1968, quando o diretor de programao Boni invadiu as gravaes de A Gata de Vison para dizer que no aguentava mais ver as mesmas caras nos mesmos papis. Um novo setor, chefiado por Cecil Thir e Maria Carmem Barbosa, foi montado naquele ano para apresentar rostos novos  direo. Ao lado da precariedade na escalao, nos anos 60 vigoravam ainda diferenciaes bizarras no pagamento de atores e figurantes  que ganhavam de acordo com a condio social dos personagens. "Cara de pobre ganhava menos", definiu Daniel Filho, ex-chefo da dramaturgia global, no livro O Circo Eletrnico. O amadorismo antigo ficou para trs graas ao trabalho de dezessete produtores de elenco que aumentam autores e diretores com sugestes a partir de um banco com 15.000 nomes. Ali esto os, consagrados e os que acabam de sair dos cursos de formao. Todo ator sindicalizado pode se cadastrar na emissora e preencher uma ficha de trs pginas com informaes das mais pitorescas  pergunta-se, por exemplo, se ele sabe falar russo ou pilotar avio. Trs mil testes de vdeo so realizados todos os anos com os candidatos mais promissores. Seja para um papel fixo na novela das 9, seja para uma participao breve numa srie, os produtores de elenco acessam um sistema desenvolvido para a emissora e procuram nomes de acordo com as caractersticas fixadas pelo autor. O programa cruza os dados dessa biblioteca e responde com candidatos que caibam nas especificaes informadas  idade, tipo fsico etc. Para renovar o plantel, cinco pesquisadores andam  caa de gente nova em peas teatrais, programas regionais, festivais de teatro e musicais. "Essa histria de olheiros que chamam pessoas para teste na praia ou no shopping  lenda", diz Leo Gama, gerente de pesquisa. Para a prxima novela das 9, quinze estreantes de So Paulo foram recrutados. 
     Regina Duarte, por dcadas, foi a mocinha que fazia par com Cludio Marzo ou Francisco Cuoco. Seguia-se uma cartilha ainda hoje adotada nos dramalhes da mexicana Televisa: h um grupo de atores que faz mocinhos, e outro que faz viles. No Brasil, esse modelo foi ultrapassado. Ainda se busca, no entanto, escalar atores que sejam imediatamente reconhecveis no papel que interpretam, como se v no caso do nariz "rabe" de Antnio Fagundes. Em outras palavras,  preciso estereotipar. "Essa  a essncia do nosso trabalho", diz Ana Margarida, gerente de produo de elenco. Ana ilustra essa lgica com contraexemplos: o filme dinamarqus A Festa de Babette jamais sairia da Globo, pois os personagens nrdicos no so todos loiros de olhos azuis. E o ator Bruno Ganz, suo atarracado e de cabelos castanhos que j interpretou Hitler no cinema, no teria a cara certa para viver um alemo na emissora. 
     A escalao de elenco  um tremendo esforo profissional, regido por normas e padres bem definidos. E, no entanto, como no pode deixar de ser na indstria do entretenimento, fatores casuais ainda pesam. Certas decises so tomadas por impulso nos corredores do Projac, o complexo de estdios da emissora. Jayme Matarazzo estava em um estdio com pai, o diretor Jayme Monjardim, quando foi abordado por uma produtora para um teste em uma trama das 6  acabou como protagonista. Walcyr Carrasco e Wolf Maya pretendiam que Paulo Vilhena vivesse um personagem gay em Amor  Vida, mas ele acabou indo para uma srie. Saam de um almoo no Projac quando cruzaram com Thiago Fragoso. " ele", concluram. Fragoso foi uma das ltimas peas a encaixar nesse quebra-cabea vivo. 

A RGUA DA ESCALAO
Com um banco de elenco de mais de 15.000 atores, dos quais 400 esto em servio atualmente, a Globo ainda enfrenta desfalque em algumas faixas etrias.

Faixa etria: de 20 a 30 anos
Mulheres: sinal verde
Homens: sinal verde
A maior parte dos alunos das faculdades de artes cnicas e dos cursos de teatro se concentra nessa faixa etria. Nela, portanto, no h escassez de candidatos. Em compensao, seu carisma e competncia so pouco ou nada conhecidos. Por isso eles so o alvo de quase todos os testes de elenco que antecedem a escalao de uma produo.

Faixa etria: de 30 a 40 anos
Mulheres: sinal amarelo
Homens: sinal vermelho
Este  o time mais requisitado para as novelas, sobretudo em papis centrais, e o mais crtico na hora de escalar. Wagner Moura, de 36 anos, e Rodrigo Santoro, de 37, atores dos sonhos dos diretores da Globo, preferem o cinema  televiso.

Faixa etria: de 40 a 50 anos
Mulheres: sinal verde
Homens: sinal amarelo
A faixa dos 40 aos 45 anos  ainda muito requisitada nas novelas, mas h uma diferena nessa categoria: sobram atrizes  Adriana Esteves  e Flvia Alessandra, que completa 40 no ano que vem, so, atualmente, os passes mais "valorizados. Mas faltam gals para segurar papis de protagonista, A Globo faz pesquisas frequentes  procura de nomes para preencher essa lacuna. Domingos Montagner, oriundo do circo, surgiu dessa busca.

Faixa etria: Acima de 50 anos
Mulheres: sinal verde
Homens: sinal verde
Esse grupo  bem menos requisitado nas sinopses atuais do que aquele entre os 35 e os 40 anos. Mas  representado por atores do primeiro escalo e considerado o mais profissional e preparado  alm de pontual.

ACOMODAES COMPLICADAS - Em sentido horrio, Vera Holtz (no alto, ao centro, de camiseta verde), Tard Werneck, Thiago Fragoso, Juliano Cazarr, Marina Ruy Barbosa, Eliane Giardini e Ingrid Guimares, corados (em alguns casos, escalados) para a nova novela das 9: a difcil arte de encontrar a cara certa para cada personagem.

ESTERETIPOS EM CENA  Susana Vieira e Antnio Fagundes, o casal protagonista de Amor  Vida, prxima novela das 9: ele  considerado "a cara de So Paulo " e tem o nariz certo para interpretar um patriarca de origem rabe; ela  a melhor atriz para personagens exageradas. Na escalao de elenco da Globo,  preciso que os atores sejam imediatamente identificveis com o papel que interpretam.


2. LIVROS  500.000 J CURTIRAM
Sucesso no Facebook, as mximas demolidoras da Diva Depresso, agora recolhidas em livro, mostram o poder dos memes no humor on-line.
MRIO MENDES

     Greta Garbo, quem diria, acabou no Facebook. No s ela, mas tambm outras estrelas  de outrora, de hoje, nacionais e estrangeiras  aparecem diariamente em vrios posts na rede social esbanjando glamour e destilando humor, ora cido, s vezes negro e sempre politicamente incorreto. A invocada Bette Davis, de cigarro em punho, vocifera: "No me amole agora. Estou vendo novela!". Twiggy, modelo inglesa dos anos 60, avisa: "Falar mal de mim  fcil, quero ver vestir manequim 34". E a cantora Janis Joplin, com cara de quem tomou todas e ainda quer mais, pergunta: "Cad cachaa?". Todas elas servem de alter ego para a Diva Depresso, personagem fictcia de uma pgina criada na rede em julho do ano passado e que, at agora, j conquistou mais de 500.000 curtidas, alm de inmeros compartilhamentos. Como, nas palavras da prpria Diva, " muita maldade para ficar s no Facebook", suas mximas divertidas e demolidoras acabam de virar livro: Diva Depresso  A Senhora dos Anis, de Eduardo Camargo e Filipe Oliveira (Matrix; 160 pginas; 29,90 reais). 
     "Noventa por cento das frases so material indito e exclusivo para o livro. Tambm fizemos o Horscopo da Diva e uma seo em que ela responde a dvidas e d conselhos sentimentais aos fs, chamada Div da Diva", informa Eduardo Camargo, que, junto com o amigo Filipe Oliveira, criou a temperamental e desbocada estrela. Oliveira  de Mau, na Grande So Paulo, e Camargo  paulistano  "da fronteira com o ABC", diz. Os dois tm 23 anos, ainda esto na faculdade, trabalham na rea de design grfico, frequentam os bares e clubes noturnos do Baixo Augusta e se conheceram numa sala de bate-papo na internet em 2007. A Diva no  a primeira tentativa da dupla de fazer humor on-line. "Antes criamos no Facebook um perfil falso de uma apresentadora B de televiso, mas foi um fracasso", diverte-se o extrovertido Camargo, apontando um expediente comum entre a juventude tuiteira e facebookiana para fazer troa de famosos dos mais diversos calibres  por isso, para evitar os fakes, vrias celebridades juntam "verdadeiro" ou "oficial" ao nome quando participam de redes sociais. 
     Na sequncia, Oliveira criou a pgina Diva da Depresso, Camargo encurtou o ttulo e os dois comearam a postar fotos de estrelas em preto e branco  "porque  mais chique", declaram em unssono  com frases que ouviam na rua, ditados populares e tiradas bem-humoradas que costumam praticar entre eles ou com os amigos. "Um belo dia, levamos um susto porque atingimos 10.000 curtidas. A no parou mais", conta Camargo. "Dez mil curtidas! Vocs no fizeram mais do que a obrigao", declarou a Diva em um post comemorativo da faanha. Os rapazes rapidamente decidiram abrir uma loja virtual, na qual vendem camisetas e canecas. 
     Alm do humor corrosivo, outro elemento que faz o sucesso da Diva Depresso  a capacidade dos rapazes para inventar memes. O termo, criado pelo bilogo e escritor ingls Richard Dawkins no livro O Gene Egosta, de 1976, designa uma unidade de informao que se multiplica de crebro para crebro, funcionando como um replicador de comportamento e evoluo cultural. Ao ser apropriado pela cultura digital, o meme de Dawkins perdeu o carter comportamental e evolutivo: representa apenas a qualidade viral da informao corriqueira que passa de uma mente para outra. Assim, vrios bordes da Diva se transformaram em memes que se alastram pela linguagem dos usurios das redes sociais. Frases como "sou dessas", "gosto assim" e "apenas observando"  utilizadas com frequncia quando a Diva assume ou confessa algum prazer comicamente perverso, de roubar o namorado das amigas a encher a cara nos fins de semana  so bons exemplos. O maior dos memes divnicos  mesmo "Eu j falei pra tu, menina", acompanhado de algum conselho sentimental maroto e ilustrado pela antolgica cena de Mammy apertando o espartilho de Scarlett O'Hara em ...E o Vento Levou. "Eu j falei pra tu, menina: rouba o menino Jesus do prespio que  casamento na certa" foi uma das mensagens de Natal da Diva. 
     Irreverentes em tempo integral, Eduardo Camargo e Filipe Oliveira garantem, que no se irritam nem ficam magoados com os comentrios agressivos que a falta de tato da personagem costuma provocar. Aos raivosos, eles dedicam a primeira frase do livro: "No vim para agradar. Ainda bem, seno teria perdido a viagem". 


3. CULTURA  ESSE CARA J ENCHEU
Roberto Carlos, o censor, volta a atacar. Pasmem: ele quer proibir um livro sobre a moda da jovem guarda.

     Ns liberamos?", perguntou Roberto Carlos, h cerca de um ms, a Marco Antonio Campos, seu advogado, ao receber o convite para o lanamento do livro Jovem Guarda: Moda, Msica e Juventude. A resposta foi negativa: uma pesquisadora ousara publicar um estudo sobre a jovem guarda sem pedir a prvia autorizao do cantor. O livro  uma dissertao de mestrado em moda da historiadora catarinense Mara Zimmermann. Dedica-se a analisar as mudanas de comportamento e estilo insufladas na juventude dos anos 60 pelo movimento musical capitaneado por Roberto, Erasmo Carlos e Wanderla. Roberto Carlos e seu advogado julgaram que a obra, com modesta tiragem de 1000 exemplares, configurava explorao comercial da imagem do cantor. H trs semanas, uma notificao extrajudicial foi remetida  autora e  editora Estao das Letras e Cores exigindo o recolhimento do livro, sob pena de "medidas judiciais cabveis". Nem Roberto nem seu advogado leram a obra que desejam censurar. O cantor j conseguira a proibio de dois livros anteriores: O Rei e Eu, coleo de fofocas assinada por seu ex-mordomo Nichollas Mariano, em 1979, e, em 2007, Roberto Carlos em Detalhes, excelente biografia escrita pelo historiador Paulo Csar de Arajo. Mais de 10.000 exemplares do ltimo ttulo foram recolhidos das livrarias. No episdio atual, Roberto reivindica direitos absolutos no s sobre a prpria histria, mas sobre a jovem guarda. "Um perodo to importante do Brasil no pode ser bloqueado por capricho dele", afirma Mara. Ao contrrio do que sugere a notificao, alis, o livro nada diz sobre a intimidade do cantor. Nenhuma meno  feita, por exemplo,  sua perna prottica, ponto sensvel na proibio dos livros anteriores. 
     Nas democracias, artistas, polticos, celebridades e demais figuras pblicas, vivas ou mortas, esto sujeitos ao escrutnio de bigrafos e estudiosos acadmicos. No Brasil, o artigo 20 do Cdigo Civil, que pretende proteger a "imagem" pessoal, abre uma brecha legal para coibir o trabalho desses profissionais. Um projeto de lei que corrige esse equvoco recebera aprovao na Comisso de Constituio e Justia da Cmara e estava a caminho da votao no Senado quando, h duas semanas, um recurso do deputado federal Marcos Rogrio, do PDT de Roraima, determinou que o texto seja antes debatido  sem data definida  no plenrio da Cmara. Rogrio apresentou um argumento escandalosamente corporativo: biografias podem prejudicar polticos em campanha. "A ideia  acabar com a censura e permitir biografias que no sejam chapa-branca", diz o deputado Newton Lima Neto, do PT de So Paulo, autor do projeto. Enquanto o Congresso procrastina, a censura anda a passos rpidos. "Roberto  muito cioso de sua obra. Qualquer pessoa que use a imagem dele e da jovem guarda precisa passar pelo seu crivo", afirma o advoga Marco Antonio. A majestade quer mesmo  um beija-mo. 
BRUNO MEIER


4. CINEMA  BOBAGEM DA MELHOR QUALIDADE
Homem de Ferro 3 existe para faturar. Mas, enquanto tira uns trocados do espectador, pelo menos o distrai com seu charme, seu humor e seus bons atores.

     Na interpretao inteligente e insolente de Robert Downey Jr., o Homem de Ferro foi a melhor surpresa surgida do casamento entre os super-heris da Marvel e o cinema. Algo que, ironicamente, se pode creditar ao fato de que nem o bilionrio fabricante de armamentos Tony Stark, que s vezes enverga a armadura de Homem de Ferro,  um super-heri, nem o filme de 2008 estava l muito interessado em outros superpoderes que no o sper ego de Tony (no confundir com superego, porque este ele no tem). E, no entanto, o equilbrio to feliz entre ateno ao personagem e ao competente, mas comedida, desandou j na primeira oportunidade. O pesado e desgracioso Homem de Ferro 2 foi salvo apenas pela exuberncia de Downey, que encobre falhas onde elas apaream. E Os Vingadores, em que ele dividia a cena com Thor, Capito Amrica, Hulk e outros, no passa de um desses colossos calculados para estuporar a plateia com a exorbitncia de efeitos (deu certo: o filme foi o campeo de 2012, com 1,5 bilho de dlares arrecadados). De onde se pode supor que Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, Estados Unidos, 2013), desde sexta-feira em cartaz, existe to somente para garimpar o filo antes que ele se esgote. Certo? 
     Sim  e no. Homem de Feiro 3 pelo menos se d ao trabalho de, enquanto deixa o espectador alguns trocados mais leve, distra-lo com bons dilogos, humor afiado e em quantidades generosas, uma excelente escalao de atores e um roteiro redondo, que oferece tanto familiaridade quanto surpresas. At onde no se espera encontr-las: sempre o aspecto menos persuasivo das adaptaes de quadrinhos, aqui o vilo (ou viles, na verdade; h umas tantas pessoas na histria que no merecem muita confiana)  um ponto force. Porque, primeiro, o Mandarim  uma figura crivel, uma variao ainda mais transtornada e enigmtica de Osama bin Laden. Depois, porque Ben Kingsley abala no papel, e mais ainda quando o papel se revela um pouco diferente do que se imaginava. Mais importante, entretanto,  que o embate entre o protagonista e o antagonista no  o eixo do enredo  at porque Tony j  sempre o pior adversrio de Tony. Na arquitetura inovadora do roteiro, ento, viles, namoradas e at aliados improvveis, como um menino com que Tony topa pelo caminho, so como que planetas cuja rbita s vezes os coloca mais perto de seu sol (e Downey, no resta dvida, anda mesmo se achando o centro do universo). 
     No mais dirigido por Jon Favreau, que assinou os dois primeiros filmes, mas por Shane Black, que foi roteirista da srie Mquina Mortfera e conhece Downey desde os tempos das vacas magras (fez com ele o saboroso Beijos e Tiros, de 2005), este terceiro episdio , enfim, tudo aquilo que o segundo deveria ter sido: um aprimoramento da frmula de colocar ao centro e  frente um personagem tornado nico por seu intrprete, e ampar-lo com ao ferica porm brincalhona (e, do ponto de vista tcnico, muito mais criativa e dinmica do que Favreau seria capaz de conceber). Black certamente no est reinventando a roda. Mas a faz girar que  uma beleza. 
ISABEL A BOSCOV


5. VEJA RECOMENDA
DISCO
ZANZlBAR, BRASIL GUITAR DUO (GUANABARA .RECORDS)
 Formado pelos paulistas Douglas Lora e Joo Luiz, o Brasil Guitar Duo devota-se tanto ao repertrio erudito quanto ao popular. A dupla j gravou composies de Jacob do Bandolim, Djavan e Pixinguinha  e, na seara erudita, do italiano Mrio Castelnuevo-Tedesco. Zanzibar, projeto que tomou cinco anos,  dedicado  obra do carioca Edu Lobo. No foi tarefa fcil: Lobo, um dos maiores melodistas da MPB, tem uma carreira diversificada, que vai do choro ao baio, do samba ao frevo. Os violonistas escutaram mais de vinte discos at chegar s treze faixas de Zanzibar. O resultado  um trabalho delicado e criativo, que em momento algum trai a concepo original de Lobo  como se pode notar em Ponteio, na qual os violes substituem muito bem a orquestrao original, e em Corrida de Jangada, de um virtuosismo exemplar. Lora e Luiz so solistas fabulosos. Mas, ao contrrio de muitos contemporneos que valorizam a rapidez sobre o sentimento, eles so tambm de uma sensibilidade rara.  o que se pode comprovar em melodias mais singelas, como Valsa Brasileira e Meia-Noite, parcerias de Lobo com Chico Buarque. 

LIVROS 
LOLLY WILLOWES; DE SYLVIA TOWNSEND WARNER (TRADUO DE REGINA LIRA; BERTRAND BRASIL; 196 PGINAS; 29 REAIS) 
 Na Inglaterra vitoriana, a mulher que no tivesse conseguido um marido at a avanada idade de 28 anos era considerada uma solteirona sem esperanas. Por isso, Lolly Willowes deixa Londres e a casa do irmo mais velho  onde viveu praticamente como uma criada desde a infncia, depois da morte de seu pai  para viver no campo. Todos, inclusive ela, acreditam que aquela seria uma existncia virtuosa dedicada  caridade e dominada pelo tdio. Porm, quando  arranhada por um gato preto em uma noite sombria, Lolly sente uma segurana at ento desconhecida e a certeza de que o animal  um enviado do demnio. Torna-se ento uma bruxa e passa a observar com aguda ironia os familiares e a cidadezinha onde vive. Romance de estreia de Sylvia Townsend Warner (1893-1978) e indito no Brasil, o livro foi publicado em 1926 e  considerado um precursor do feminismo na literatura inglesa. A prosa elegante da autora mistura devaneios sobrenaturais com uma crtica aos restritivos valores que ainda comandavam a sociedade britnica do incio do sculo passado. 

PESSOAS QUE PASSAM PELOS SONHOS, DE CADO VOLPATO (COSACNAIFY; 320 PGINAS; 39,90 REAIS) 
 No fim dos anos 60, o arquiteto brasileiro Rivoli contrata Tortoni, um motorista de txi de Buenos Aires, para conduzi-lo em uma acidentada viagem at a Patagnia. Anos depois,  Tortoni quem busca a ajuda do brasileiro: pede que ele providencie abrigo para o filho, Francesco, e para a namorada dele, ativistas que correm o risco de ser presos  ou "desaparecidos"  pela ditadura argentina. Entre esses dois momentos, vislumbra-se muito da traumtica histria dos anos 60 e 70, embora este no seja propriamente um romance poltico. Msico, jornalista e escritor com quatro coletneas de contos publicadas, o paulista Cado Volpato, nesta bela estreia no romance, evita os caminhos militantes e escapa ao realismo vulgar. Os fatos polticos so sempre vistos do ponto de vista individualssimo dos personagens, e os pesadelos da histria se mesclam aos delrios dessas pessoas que, como anuncia o ttulo, parecem passar pelos sonhos. 

DVD
O HOMEM DO RIQUIX (MUHOMATSU NO ISSHO, JAPO, 1958. VERSTIL)
 Rude e brigo, o puxador de riquix Matsu (Toshiro Mifune)  no entanto uma figura popular em seu vilarejo pela sua personalidade colorida e generosidade: quando v um menino se ferir numa brincadeira, ele no hesita em largar um fregus no riquix para socorr-lo. Gratos, os pais do pequeno Toshio travam amizade com Matsu. O qual, quando o capito morre, se tornar uma figura paterna para Toshio e um amigo para a viva (a radiante Hideto Takamine), numa espcie de romance inconfesso. O diretor Hiroshi Inagaki (1905-1980) foi um dos definidores do filme de poca japons com cones como Chushingura, de 1962, e a trilogia Samurai, de 1954-1956 (a qual tambm  estrelada por Mifune e foi lanada aqui pela mesma distribuidora). Se o estilo de interpretao em O Homem do Riquix  algo caricato e datado, o mesmo no se pode dizer da doura da histria e do classicismo da direo  no h composio que no seja magnfica, e que a belssima paleta de cores leitosas no acentue. Apesar de sua influncia, Inagaki logo sairia de moda e terminaria a vida na obscuridade e no alcoolismo. 

CINEMA 
DEPOIS DE MAIO (APRS MAI, FRANA, 2012. EM CARTAZ NO RIO E EM SO PAULO) 
 Na Paris de 1971, Gilles (Clment Mtayer), estudante do 2 grau e aspirante a pintor e cineasta, participa de passeatas, discute a ascenso do proletariado e picha paredes com palavras de ordem. Impaciente pela revoluo, seu grupo comea a organizar aes mais violentas  at que uma delas deixa uma vtima. Os amigos, ento, se dispersam, no que se tornar um passeio enciclopdico pelas facetas do ativismo e da contracultura ps-maio de 1968. Laure, a namorada de Gilles, toma o rumo do psicodelismo e das drogas; Christine, sua nova namorada, junta-se a um ncleo linha-dura que quer fazer cinema de "conscientizao"; seu amigo Alain vai meditar em Cabul. J o prprio Gilles, assumidamente um alter ego do diretor Olivier Assayas, retorna  Frana para cursar belas-artes e trabalhar com o pai, um produtor de TV, desprendendo-se aos poucos da rbita dos companheiros. Assayas, do excepcional Horas de Vero, lana um olhar enfaticamente despido de qualquer indulgncia ou romantismo sobre as buscas de sua gerao  repare-se, por exemplo, na maneira como todos os personagens regurgitam frases feitas em suas conversas.


6.OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA 
4. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA
5. A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA
6. Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS
7. O Destino do Tigre  Collen Houck. ARQUEIRO
8. Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA 
9. Irresistvel  Sylvia Day. HAMELIN 
10.   Insurgente  Veronica Roth. ROCCO 

NO FICO
1. Sonho Grande  Cristiane Correa. PRIMWIRA PESSOA
2. Casagrande e Seus Demnios  Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO
3. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR
4. O Castelo de Papel Mery Del Priore. ROCCO
5. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
6. O Dirio de Helga  Helga Weiss. INTRNSECA
7. O Livro de Filosofia  Vrios. GLOBO 
8. Sobre o Cu e a Terra  Jorge Berboglio e Abraham Skorka. PARALELA
9. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA
10. Lincoln  Doris Kearns Goodwin. RECORD 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
2. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
3. Uma Prova do Cu  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE
4. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
5. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE 
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
7. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
8. 50 Coisas que Voc Pode Fazer para Controlar a Ansiedade  Wendy Green. LAFONTE
9. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
10. No se Desespere!  Mario Sergio Cortella. VOZES


7. J.R. GUZZO  ENTRE IDEIAS E ATOS
     Imagine-se o que poderia acontecer se algum rgo de imprensa brasileiro publicasse as linhas que vo logo abaixo  no caso,  claro, de que se consiga encontrar em algum lugar do territrio nacional um autor disposto a escrev-las, com seu nome e sobrenome assinados logo depois do ttulo. Vamos a elas: "Eu direi que no sou, nem jamais fui, a favor de implantar, sob qualquer forma que seja, a igualdade social e poltica entre as raas branca e negra  que no sou, nem jamais fui, a favor de fazer com que negros sejam eleitores ou jurados, nem de, qualific-los para ocupar cargos pblicos, nem de permitir que casem com pessoas brancas. E eu direi, alm disso, que existe uma diferena fsica entre as raas branca e negra que, segundo acredito, impedir para sempre que ambas vivam juntas em termos de igualdade social ou poltica. E, considerando-se que elas no podem viver assim,  preciso que haja, em sua convivncia, uma posio de superior e inferior - e, tanto quanto qualquer outro homem, eu sou a favor de que a posio superior seja atribuda  raa branca. Aproveito esta ocasio para dizer que o fato de o homem branco deter a posio superior no significa, em minha percepo, que se deva negar tudo aos negros". Voltando ao comeo: quem escrevesse e publicasse essa prosa brbara no Brasil de hoje seria condenado, no mundo dos desejos, a passar toda a eternidade indo e voltando do primeiro ao nono crculo do inferno. 
     Puna-se aqui mesmo na terra, de qualquer forma, o autor do crime  e com o mximo do rigor permitido pela lei penal, certo? No to certo quanto parece. Na verdade, recomenda-se a acusadores em geral ir com muita calma nessa histria. As palavras venenosas do texto citado no pargrafo anterior no so inventadas. Tm, portanto, um autor de carne e osso, e esse autor  altamente problemtico: seu nome  Abraham Lincoln. Ele mesmo, Lincoln, o presidente americano que aboliu a escravido nos Estados Unidos e se tornou o maior combatente em favor da liberdade dos negros em toda a histria da humanidade. Lincoln no foi um terico. Comandou uma guerra civil na qual morreram 600.000 homens nos Estados Unidos, entre 1861 e 1865. Recusou-se a aceitar a paz oferecida pelos estados americanos do sul, que no queriam mais combater, mas queriam manter os escravos; dizia que o essencial no era acabar a guerra, mas sim acabar a escravido. Morreu assassinado, logo aps sua vitria, por um escravagista transtornado pelo desejo de vingana. Muito bem: quem se habilitaria a pr esse homem na cadeia, por pregao do racismo? 
     O manifesto racial de Lincoln no foi uma tolice de juventude; ele apresentou essas suas ideias aos 49 anos de idade, num debate em 1858, dois anos antes de eleger-se presidente e de iniciar, no ano seguinte, a guerra contra a separao dos estados que pretendiam manter a escravatura. O que teria acontecido com ele? Nada mais do que acontece com outros seres humanos  o convvio, na prpria cabea, de pensamentos que no se ligam entre si. Lincoln acreditava na superioridade da raa branca. Ao mesmo tempo, e com a mesma firmeza, acreditava que escravizar negros era uma abominao intolervel, contra a qual valia a pena entrar numa guerra sem trgua. Uma das possveis lies disso tudo  que entre ideias e atos h mais coisas do que supe a nossa v filosofia  e que a prudncia aconselha a julgar os homens menos pelo que dizem e mais pelo que fazem. 
     Robespierre, personagem-smbolo da Revoluo Francesa,  um homem amaldioado at hoje na Frana; em toda Paris, no h uma nica avenida, rua, praa, esttua ou o mais reles beco com o seu nome. Entende-se: durante o seu auge, no perodo de um ano em que presidiu o ttrico Comit de Salut Public, Robespierre comandou o que se chamava oficialmente de "Governo do Terror", curiosa forma de regime que considerava o assassinato em massa a maneira mais eficaz de gerir um pas. At hoje no se sabe quanta gente ele mandou para a guilhotina entre julho de 1793 e julho de 1794; fala-se de 40.000 a 50.000 pessoas, sendo que a ltima cabea a rolar foi a sua prpria. E no entanto acredite: cerca de quatro anos antes, no que certamente  um dos maiores momentos da histria mundial do humor negro, Robespierre props  Assembleia Nacional a abolio da pena de morte. 
     Atirar primeiro e pensar depois pode acabar dando nisto: Abraham Lincoln vira um srdido racista, e Robespierre, um campeo dos direitos humanos.

